quinta-feira, 29 de novembro de 2007

"Meu Bom Levi" - Soneto Daimista

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“Meu bom Levi”



Uma conta cobrada em sessão



A chaga de menino que causei,
Perdida entre mim e mesmo em mim,
Pulou pela goela e me afoguei
E o cuspe que sorvi... veneno, assim.

“Depois de vinte anos, regressei,
Porque a conta aberta era sem fim” –
Foi quem – quando moleque – magoei,
Voltou para cobrá-la junto a mim.

Orgulho – ingrato pai dos afogados –
Não resta quem lhe tome como bóia
Ao mar por onde nadam naufragados;

Mas só me coube um gole, um, somente,
Pra mão eu estendê-la além da bóia
À busca de salvar-me em mar doente.




(Fredson N. Aguiar)

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

"Seara de Arbusto" - Soneto Espírita

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"Seara de Arbusto"



Nenhum modelo a ser seguido pelo mundo
(Por este ou outro que o Universo desconheça),
É que serei, caso o tratado permaneça,
Assimilado pelo arado mais fecundo.

Pois a semente que eu sou, o Pai não planta –
Seca, estéril e atrofiada pelo broto.
Assim, um pobre de espírito bem roto,
Como eu, recusa o húmus santo da mão santa.

O Pai escolhe na seara de sua messe,
Em quais videiras uvas cheias de doçura
Adoçarão o vinho novo da quermesse;

Mas, faz também a sua escolha de vetusto,
Pois há sementes que só nascem em terra dura
E vem ao mundo pra viver como arbusto.



(Fredson N. Aguiar)

"Epicentro" - Soneto Espírita

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"Epicentro"



Minha harmonia é diverso epicentro
Dessas tragédias geológicas da esfera –
A propulsão com que o gêiser cospe a serra
É a mansidão do meu espírito por dentro;

O caos revolto em tsunamis de cimento
É o coração que sepultei no Mar de Ross;
E o tremor, na escala Richter, vem após,
Pra desbastar as colunatas que sustento.

O Instituto Anti-Tragédias que disponho
É o papel, é uma caneta e um cigarro
E todo o crânio liquefeito de neurônio;

E só terei a vã calmaria da geosfera,
Quando o Pai puxar a clava do anteparo,
E desprender-me, eternamente, dessa Terra.



(Fredson N. Aguiar)

terça-feira, 27 de novembro de 2007

"Aposento de Cura" - Soneto Espírita

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"Aposento de Cura"



Porque Hypolite não viu no meu Destino
O que a escritura dos irmãos desencarnados
A nominasse como vaticina um fado,
Que atropela os invólucros do intestino.

Alma gentia que padece como morta,
Que não trilhou - fora a matéria - um passo só;
Como um encarnado que irá voltar ao pó,
No mesmo ranço de ferrugem duma porta.

Quando vos digo "O Evangelho não me sabe!",
É porque digo, bom Alan, que essa doença
É uma sentença em que a cura não me cabe.

Mas, sempre ouço vir de ti o contentamento
De que o Pai sabe doar convalescença
A cada filho que repousa em seu aposento.




(Fredson N. Aguiar)

"Sono e Desprendimento" - Soneto Espírita

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"Sono e Desprendimento"



Nos outros mundos metafísicos que ando,
Quando meus olhos não repousam sobre mim,
Deixo-lhes massa de energia, solta assim,
Por este fio sensorial que vou ligando;

Vejo os irmãos evoluídos procurando
Qualquer resquício de bondade que há em mim,
Por esta força ectoplásmica de afins,
Que no meu corpo repousado está murchando.

Um forasteiro que cruzou a linha ao longe
Do factível e do crível e que é estranho
Foco de plasma rebaixado, sujo monge;

Fico a vagar aprissionado em Luz e Trevas
Entre dois mundos e é lá que sou tacanho
Bicho enjaulado desprendido pela relva.




(Fredson N. Aguiar)

“Casebre” - Soneto Daimista

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“Casebre”



No coração de quem toma



Sabemos sem saber: salões divinos
(Oh, sala inusitada em nossas mentes!)
Com vagas de tortura nos dormentes
Por onde vão vagões rangendo hinos;

Salões inexplorados e esquecidos –
Colunas, velhas câmaras e porões,
E poeira amontoada nos balcões
Da tasca e dos casebres já falidos.

E quando nós entramos, nos prendemos
Às teias e ao mofo nas paredes
De chagas tão antigas, que esquecemos;

E assim que essa demão de Daime dão,
Aos poucos essa Casa, que ora vedes,

Descobres - que era ali teu coração.



(Fredson N. Aguiar)

sábado, 24 de novembro de 2007

"Casa Aberta" - Soneto Daimista

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“Casa Aberta”



Sob o efeito da Força



Não há faca que nossa alma desprenda
Da Força do Chamado a esse ofício;
Nem goma que nos cole pela fenda
Do orgulho, como a gorda mãe do vício.

Porque é quando a Cura encontra a Força
Que o ciclo se completa de elementos –
Jagube que se casa com a Rainha
E as luzes que desposam o firmamento;

E o som da Miração é escala incerta
Em tons e subtons que vêm da tenda
Que o mestre ergueu no céu – sua Casa Aberta;

E a flauta é este vinho que engrandece;
E o corpo é só uma veste à oferenda
Que Deus concede ao espírito que cresce.



(Fredson N. Aguiar)